Miss Paripueira: o reinado da fantasia em um carnaval eterno

ria da Conceição, a Miss Paripueira

A história de Ambrosina Maria da Conceição se constrói entre lacunas e memórias afetivas. Não há registros precisos sobre seu nascimento ou origem, mas sua presença já marcava a vida cultural de Paripueira, em Alagoas, nas décadas de 1960 e início dos anos 1970. As referências mais antigas a situam nas tradicionais procissões de Santa Rita de Cássia, onde sua figura chamava atenção pela devoção intensa e pela singularidade que, mais tarde, a tornaria inesquecível.

Segundo Maria Cícera da Silva, nora de um de seus netos, Ambrosina manteve por muitos anos a tradição de homenagear Santa Rita em celebrações realizadas em um espaço fechado, na Rua das Velhas, no Alto da Boa Vista. “Quem não era convidado ficava curioso, espiando pelas portas e janelas do barraco. A cantoria atravessava a noite e só terminava ao amanhecer”, relembra.

Mãe de Almira Maria da Conceição, Ambrosina passou a apresentar sinais de transtorno mental em meados da década de 1970. “Ela amanheceu assim, de um dia para o outro”, recorda Maria Cícera, que a acolheu e cuidou dela até sua morte, em 1998. A partir desse período, assumiu o papel de beata popular, percorrendo ruas e praias de Paripueira com uma bandeja adornada de flores e a imagem de Santa Rita de Cássia, pedindo contribuições para uma novena que, segundo dizia, aconteceria em sua casa. Era então conhecida simplesmente como “Vizinha”.

A transformação definitiva viria em um domingo de Carnaval, episódio eternizado pelo advogado Carlo Ramiro Basto. Enquanto pedia esmolas na praia, Ambrosina foi abordada por um grupo de jovens que, em tom de brincadeira, sugeriu que ela se candidatasse a Miss Paripueira. Satisfeita com a proposta, aceitou de imediato. Em poucos minutos, improvisaram uma fantasia com faixa, coroa e a colocaram em um jipe sem capota que acompanhava o caminhão da orquestra. Ao longo do percurso do corso carnavalesco, foi ovacionada pelo público. A partir daquele dia, a “beata” deu lugar à Miss Paripueira, personagem que jamais abandonaria.

O ator e cineasta José Márcio Passos, que conviveu com Ambrosina durante a produção do curta-metragem Meu Nome é Miss Paripueira, descreve uma mulher cuidadosa com a aparência e profundamente envolvida com seu personagem. Segundo ela, descuidar-se seria abrir espaço para que sua arquirrival, Lulu da Barra, lhe roubasse a coroa e o título. Lulu, dizia Ambrosina, não sabia desfilar nem dançar Carnaval. Apenas ela dominava o lendário “passo da onça”, estilo próprio que utilizava para desafiar a rival imaginária.

Antes mesmo de sua morte real, Miss Paripueira chegou a ser “assassinada” simbolicamente por um jornal, que publicou equivocadamente sua morte por atropelamento no centro de Maceió. Meses depois, já recuperada do acidente que a manteve internada por longo período, Ambrosina descobriu a falsa notícia e não hesitou em apontar a origem do boato: Lulu da Barra, sua eterna inimiga.

Entre a irreverência e a fúria

Vivendo das contribuições que arrecadava para o simbólico “concurso” de Miss Paripueira ou cobrando para posar em fotos com turistas, Ambrosina também enfrentava provocações constantes, especialmente de crianças e alguns adultos. Bastava chamá-la por apelidos ofensivos ou insinuar que seu noivo fictício, Salgado Sales, personagem de novela, havia a abandonado, para que a fúria viesse à tona. Armava-se de pedras e instaurava o caos, ainda que sua pontaria fosse imprecisa, atingindo tudo ao redor.

A agressividade também surgia quando seus pedidos de dinheiro eram recusados. Insistia, provocava e, ao perceber a negativa definitiva, reagia com xingamentos que, segundo os relatos, alcançavam gerações inteiras da família do desafortunado interlocutor.

Ícone popular e personagem político

Em 1982, Miss Paripueira ultrapassou os limites da cultura popular e entrou no cenário político. Durante a campanha de Fernando Collor à Câmara Federal, o publicitário José Helinton decidiu utilizá-la em uma peça do Guia Eleitoral. A gravação parecia simples: uma frase curta, “estou com quem trabalha”. No entanto, Ambrosina acreditava que cada tomada exigia pagamento individual. Collor obteve a declaração, mas o publicitário encerrou o dia sem dinheiro no bolso.

Não foi a primeira vez que Ambrosina cobrou pelo uso de sua imagem. Quando o Banco do Estado de Alagoas lançou a Poupança Produban e exibiu rapidamente sua figura em uma propaganda, ela apareceu dias depois no banco, devidamente caracterizada, exigindo seus “direitos autorais”.

Sempre cercada de adereços, óculos escuros e brilho, Miss Paripueira se via como uma mulher bonita, desejada e admirada. Embora cercada por pretendentes imaginários, aguardava fielmente seu eterno noivo português, Salgado Sales. Amava música, dança e, sobretudo, o Carnaval. Nos desfiles de Maceió, posicionava-se à frente dos blocos como se fosse porta-bandeira, conduzindo a alegria com passos firmes e personalidade inconfundível.

Blocos tradicionais como Vulcão, Cavaleiro dos Montes e Vou Botar Fora tiveram a honra de tê-la à frente, espalhando riso, irreverência e encantamento entre os foliões.

Com sua morte, em 1998, Paripueira e Maceió perderam não apenas uma personagem excêntrica, mas um dos maiores símbolos da cultura popular alagoana, uma rainha sem trono oficial, coroada pelo povo e eternizada no imaginário coletivo como a Miss de um carnaval que nunca termina.

Fonte: Jornal Última Palavra de dezembro de 1988, nº 51 e o texto “Olha a Miss Paripueira!” de Francisco Ribeiro, publicado em Graciliano On-Line.

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